terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bilhete

As coisas não andam fáceis. O tempo está correndo, a areia não escorre como na ampulheta, mais parece água. Não há momento para quase nada.
Eu queria escrever uma dúzia de linhas, com as frases mais bonitas e tocar aquela canção.
Eu queria saber como você está e o que você gostaria de ver nas tardes de chuva. Queria que as horas não voassem e que as folhas ficassem por mais tempo dependuradas, quase caindo. Queria um momento de beleza rara, para leituras e trevinhos catados no jardim.
Por enquanto, fico na vontade das metáforas que estão por vir, e que, no instante, não vêm. O tempo anda insistindo em me ironizar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Aos poucos


Diz a letra de uma canção: "O problema é que eu te amo". (autoria de um intenso e rebelde Nando Reis) Será? Não é bem desse forma que as coisas são. Soa artificial dizer que o ato de amar alguém seja o problema. Está em cada um, e não em um casal, as dificuldades e problemas que enfrentamos em relacionamentos a dois. São as manias, o orgulho, o ciúme que trazem as durezas de uma convivência a dois. Já agora, me lembro de outra canção. "Saber amar/ Saber deixar alguém te amar". Dessa vez as palavras são de um amadurecido Herbert Viana.

Amar é ceder, em um exercício quase antropológico, de colocar-se no mundo do outro e compreender suas convenções. Nada fácil. Gostar de alguém é fácil, e diferente de estar disposto a "saber amar" de fato.

Hoje quis falar de amor, sem qualquer pretensão. É preciso estar disposto para admitir que se ama. No entanto, não acredito em regras ou postulados para ensianar a amar alguém. Por isso, não há uma fim conclusivo, apenas lancei hípóteses, de pensamentos soltos que já tive sobre o assunto.

Amar é uma palavra forte. Falar de amor soa clichê. Entregar-se à alguém é aceitar uma nova versão de nós mesmos. Exige um trabalho constante, contínuo e que traz em si algumas contradições. Requer conversas, declarações, brigas, clichês, e para além disso, exige fôlego para manter e renovar o sentimento.

Evitar os perigos pode começar com outro trecho da canção dos paralamas :"Todas as formas de se controlar alguém/ Só trazem um amor vazio" O que parece simples, pode reverberar discretamente em nossas ações. Queremos entender o outro, nessa busca, metemos os pés pelas mãos, e sem perceber, tentamos exercer controle. Qualquer ser humano tem esse instinto, e é ele que precisa ser controlado.

Hoje quis falar de amor... E tudo isso, porque amo muito. É por sentir, assim intensa e calmamente, um paradoxo, que tenho mais dúvidas e perguntas, do que teria renunciando a essa entrega.

Esse texto é livre de quaisquer pretensões, como já disse. Talvez seja uma tentativa consciente de justificar, a subjetividade do conjunto de sensações e incertezas que experimentei. Ironicamente, tal redemoinho se deu em torno da única certeza que tenho: que amo, e muito.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Crítica 1 - Onde os fracos não tem vez

Sombras do Velho Oeste

Impactante seria o adjetivo que melhor definiria a combinação de impressões que se tem ao assistir o consagrado Onde os fracos não têm vez (No country for old man, 2007), dos irmãos Coen.

Há dois pontos fortes que mais me chamaram a atenção no filme. Primeiro, a clara relação que a obra mantém com o cinema clássico de faroeste dos anos 1920, em tom de ironia e, também, homenagem. Mas cujo ponto crucial parece, no meu ponto de vista, ser de um niilismo (em relação ao estado das coisas) presente no filme, que resulta da impossibilidade de recuperar o passado, almejado por muitos personagens. Outra questão diz respeito à forma do filme, cuja releitura do gênero é aliada a uma crítica ao tradicional cinema Hollywoodiano, que imita os clássicos com objetivo de atingir grandes bilheterias e, com isso, produz um cinema previsível e sem qualquer inovação estética ou narrativa.

O enredo do filme é basicamente a história de um xerife (Tommy Lee Jones) que já não mais consegue compreender ou solucionar os crimes do Velho Oeste, no Texas. Então, decide se aposentar e se depara com um último crime, uma transação de drogas que envolve dois milhões de dólares, o psicopata Anton Chigurh (Javier Bardem), um típico cidadão do oeste, Lwelyn Moss (Josh Brolin), outro assassino, que parece um “mocinho ao avesso”, e vários outros personagens pegos pelo acaso.

A narrativa parece se dividir em dois momentos, o primeiro anterior ao encontro de Chigurh e Llwelyn e o outro, posterior a esse encontro, quando a trama começa, se é que é possível, a se revelar, momento em que, Llwelyn, ferido, é hospitalizado. (frase muito pausada) Do ponto de vista formal, isso se dá com a mudança na iluminação, com a diminuição dos contrastes, os quadros ficam mais claros. Há também a introdução da cor azul, em meio a uma imagem composta por tons alaranjados e marrons. Já no hospital, aparecem tons claros, mas a grande mudança é uma panorâmica do céu azul e limpo, na fronteira entre EUA e México.

Já no prólogo, as paisagens do Texas mostradas são imagens de um crepúsculo alaranjado e de pradarias de folhas amarelas. Em off, é a voz do xerife que narra o que eram os velhos tempos no oeste – num começo bem característico do estilo dos irmãos Coen. Ele fala de como não entende os crimes que vêm acontecendo, e não sabe se vale a pena arriscar sua vida para ser parte desse mundo. O personagem demonstra um apego aos “velhos tempos”, quando ele e pai foram, ao mesmo tempo, xerifes. E, curiosamente, uma das cenas mais intrigantes é o desfecho do filme que retoma de modo onírico essa imagem de pai e filho nos velhos tempos. Porém, nesse momento, o xerife não fala com nostalgia.

Após o prólogo, um plano baixo mostra a estrada, em seguida, um movimento de câmera para cima, um pouco brusco, porém, bastante representativo, pois nos permite ver a continuidade da estrada e, ao fazer isso, nos insere naquele universo do qual fala o xerife Ed Tom Bell.

É nesse ambiente que encontramos Llwelyn (Josh Brolin), bem ao estilo texano, com escopeta na mão, caçando animais. Fala pouco, é ambicioso, orgulhoso e pretensioso, um tipo que não desiste nunca e nada teme. Sua vida muda quando encontra a maleta. Os planos seguintes são escuros e, em grande parte, se passam durante a noite. Privilegiam-se tons marrons e alaranjados, compondo uma estética da região Oeste, mas que também passam a ideia de mistério.

Nesse ambiente e, representando o que seria a grande sombra sobre ele, está Anton Chigurh. O assassino psicopata, como será descrito mais à frente no filme, está sempre de preto, é um homem de porte e de pouquíssimas palavras. O personagem de Javier Bardem é quem representa o niilismo. O jogo de cara e coroa, usado para decidir se deve ou não matar uma pessoa, a naturalidade e trivialidade com que faz isso, como quem vai ao banheiro. Em uma análise mais profunda, podemos pensar na sua arma de ar comprimido que não deixa indícios, uma vez que não precisa de balas, revelando ausência de uma convenção, até, para cometer crimes.

Conhecemos a personalidade de Chigurh a partir da aparição de um personagem secundário, mas que marca o início da segunda parte do filme e, também a mudança na iluminação, que se torna menos contrastante, como já havia dito. Falo de Carson Wells (Woody Harrelson).

Tal separação não gera uma quebra narrativa, que é mantida pela montagem clássica, bem ao modo dos velhos faroestes: linear, encadeando fatos de forma lógica (e cronológica).
Através da montagem, percebemos uma alusão aos duelos na constituição dos diálogos. A maioria é filmada em plano e contra-plano e, alguns deles, de fato, são duelísticos. Uma sequência retrata e ironiza esse tipo de cena em Onde os fracos não tem vez:

Carson Wells, um mocinho de faroeste às avessas, é mandado para recuperar a maleta pelos mesmos mafiosos que contrataram Chigurh. Na sequência, Chigurh aparece seguindo Wells. Já na escada, há um rompimento com o que seria tradicional: Wells se vira para Chigurh, mas não tenta se defender. No próximo plano, vemos Wells, enquadrado do peito para cima. Ele está de cabeça baixa e com um chapéu de abas, no melhor estilo do mocinho. Levanta a cabeça bem devagar e olha diretamente para a câmera, no modo como faziam os duelantes. A quebra vem com o próximo plano. Nele, vemos Chigurh sentado com sua arma de gás comprimido em punho e, um sorriso de deboche, um corte e, quem aparece é Wells desarmado, tentando amenizar a situação sem, contudo, perder a pose.

A partir dessa cena, o filme parece se deslanchar para um final, sem que para isso, o “estado das coisas” mude. O trabalho com a luz serve para mostrar que não há mais mistério, que talvez os crimes e tal “estado das coisas” não tenham explicação. Há sintomas em todo o filme (narrativa e formalmente), mas não são dadas soluções.

Por último, vale ressaltar o momento em que o reaparecimento das sombras tem um significado.
Uma cena belíssima, quando o xerife vai à porta do quarto de hotel em El Paso. Ao abrir a porta, o que vemos é sua sombra na parede, grande e imponente, com arma na mão. Mas essa imagem é só um reflexo do passado, que está distante, vivo apenas na memória do xerife e em seus reflexos.

Na busca por unir a linha narrativa, as escolhas formais e referências à história do cinema, os Coen ironizam um caráter industrial do cinema, no qual há lógica e a trama se desenvolve, chegando a uma final que apresenta soluções. Onde os fracos não tem vez deixa quase tudo em suspenso. O espectador pode buscar sentido ou compreender que, na verdade, não há nenhum.