Ninho vazio. A expressão resume bem uma sensação que começa a ser experimentada por nossos pais. Formados, ou quase formados que estamos. Alguns, que vieram do interior, já deixaram temporariamente a casa dos pais. É um ciclo natural. Acontece com todo mundo que vira adulto.
A mesma expressão é título de um filme argentino. Nele, um pai pergunta pela filha à mulher. Já passam das onze da noite e nem sinal da menina. A mãe, disfarçando a preocupação, responde que a filha foi a uma festa com o namorado e volta mais tarde. O pai se assusta e pensa “Ela já tem namorado?”. Então, senta numa poltrona da sala e finge estar escrevendo, lendo. Na verdade, espera. O resto do filme se passa como um sonho, pois ele adormece na poltrona à espera da filha. Quantas vezes nossos pais não fizeram o mesmo por nós? Mesmo deitados, disfarçando, esperavam aflitos pelo o barulho das chaves? Ou, de longe, em outra cidade, ansiavam por uma ligação na madrugada?
Nesses anos de faculdade, começamos a dirigir, a sair à noite sem hora para voltar e sem necessariamente dar notícias. Já morando em repúblicas ou apartamentos com amigos, deixamos de ligar no fim de semana para perguntar como eles estavam no fim de semana?
Hoje, quando concluímos mais essa etapa, percebemos que sem eles nada teria sido possível. Nós, filhos, queríamos agradecer pela compreensão de nossos pais. Por saber que a faculdade é época de descobertas, de encontros alheios aos de família, de viver mais com amigos e mestres, de passar horas em estágios, mesmo ganhando pouco por isso.
É o momento de experimentar, arriscar. Só que explorar novos rumos e caminhos é sempre um risco. Por isso, tivemos momentos de choros, de dúvidas e medos que pareciam muito maiores do que eram. Quando assim acontecia a viagem era de retorno ao lar em busca de quem nos acolheria melhor. Ainda que sem admitir, procuramos por vocês. Numa ordem natural da vida de buscar segurança.
Então, mesmo que deixemos o ninho, o vazio é sempre relativo. Na casa da nossa infância permanecem os melhores gostos, afetos e a certeza de proteção.
10 meses atrás
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