La Boca e San Telmo
A capital federal da Argentina tem dois bairros tão característicos que é impossível não se deixar transformar pela atmosfera: o La Boca, conhecido pelas suas paredes multicoloridas e o outro é San Telmo, reduto de boemia, tango e antiguidades. Começarei pelo passional La Boca, com suas formas e cores, construções típicas e com o espírito de um antigo cais de porto e seus trabalhadores de outrora.
Para a maior parte dos turistas o La Boca tem dois grandes atrativos: O El Caminito, que é de uma energia marcante e distintiva pelas cores e o estádio La Bombonera do conhecido clube de futebol Boca Juniors. Este último optei por não visitar, uma vez que, para quem não é fã de futebol, visitar um estádio e um museu do time não parecia fazer muito sentido.
Quando cheguei ao bairro não eram dez da manhã ainda. Encontrei o El Caminito vazio, sem qualquer vestígio das dezenas de barracas que o ocupam ao longo do dia. A tradicional casa de chocolates e alfajores, Havana, estava igualmente vazia. O bairro acordava tranquilamente. Foi uma grande surpresa encontrar um La Boca diferente daquele tradicional burburinho que eu imaginava.
Após uma caminhada pelas paredes coloridas, registradas com minha câmera fotográfica, resolvi visitar o museu de Quinquiela Martín. Eu não conhecia o pintor, mas descobri que foi ele um dos grandes responsáveis por registrar o bairro e as imagens portuárias da capital. A casa é bem simples, assim como toda a estrutura do museu. Os pintores do acervo são nomes argentinos que tiveram algum reconhecimento dentro do contexto artístico do país, ou foram seguidores de Quinquela.
A visitação se mostra única por dois motivos: os quadros do próprio Quinquela, que tem em si um movimento e uma vivacidade incríveis. Parecem seguir o fluxo das águas do porto e transparecem toda o sentimento de uma forte paixão, frequentemente encontrado nos becos do La Boca, seja nos dançarinos de tango, nos fanáticos torcedores do clube ou nos simples artesãos que exibem suas obras na feirinha. O outro motivo que torna obrigatória a visitação é válido mesmo para quem não é apreciador de arte. É que a casa possui um terraço com uma vista maravilhosa que engloba o porto e de todo o bairro. Eu diria, sem dúvida, que é uma das mais belas vistas que vi em Buenos Aires e, com certeza, a de maior altura.
Terminada a visitação no museu, segui pela feirinha d’ El Caminito. Sem dúvida foi a feirinha pela qual eu mais me apaixonei. Encontrei um artesanato singelo, mas cheio de vida. Pessoas talentosas, simpáticas e que conseguem passar com seu trabalho o espírito desse canto tão característico e passional da capital argentina. La Boca é puro sentimento, é um órgão pulsante dentro da tão diversa Buenos Aires.
Continuando no ritmo de feirinhas espalhadas pela cidade é impossível não se lembrar de San Telmo. Um dos bairros mais tradicionais e antigos da capital portenha que abriga duas feirinhas: a de antiguidades que acontece todos os dias na Plaza Dorrego e o Mercado das Pulgas, que ocupa a praça aos domingos. Para os fãs de mercado o bairro conta com um, onde o que não falta é variedade.
San Telmo é o bairro da boemia de Buenos Aires, repleto de bares, cafés e restaurantes simpáticos que dividem espaços com holstels, lojas alternativas, antiquários, lojas de decoração. Em San Telmo se reúnem várias tribos. É sem dúvida, um dos bairros mais charmosos da cidade, em parte, devido às construções antigas, em outra devido ao ritmo de seus moradores e turistas. Respira-se um ar diferente por ali. Uma das cenas mais belas que presenciei em Bs As foi o princípio da noite de domingo em San Telmo. Na Plaza Dorrego armou-se uma pista de dança iluminada por lâmpadas coloridas encadeadas em um fio, uma vitrola tocava tango e casais de todas as idades, tribos, jeitos e trejeitos dançavam livremente.
Ir a San Telmo é vivenciar a cidade no que ela tem de mais tradicional, por um lado, e mais irreverente, por outro. Além de curtir as ruas, vale a pena visitar o Museu de Arte Moderna e as várias galerias de arte que o bairro abriga.
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